



Porém, e se a este grupo se deve a toponímia "Vale de Aran", a presença humana no local não nasceu com a sua chegada. O Vale de Aran é parte integrante de um sítio maior denominado Quatrim (hoje também conhecido pela divisão entre Quatrim norte e quatrim sul) e cuja antiguidade, segundo o investigador Luis Fraga, da associação campo arqueológico de Tavira, remontará, pelo menos, à época dos romanos. O presente Quatrim seria então uma zona rural conhecida por Quatrinium (http://arkeotavira.com/alg-romano/marim/), a norte do assentamento de Marim, entre as importantes cidades de Ossonoba e Balsa.
Registe-se também que o termo "Quelfes" não existe nesta altura. Embora a doutrina não seja unanime (Hubner, arqueólogo alemão defende a origem visigótica do termo, por oposição a Frei João de Sousa, apóstolo da origem àrabe), esta aponta para uma orige
m sempre posterior à época clássica. De facto, o sítio que hoje corresponde à localidade de Quelfes, terá ganho essa associação talvez apenas a partir do século XIX, uma vez que o primordial nome do sítio é (e ainda presente nos mapas cadastrais) Sítio da Igreja. Remontando a fontes do século XVII, altura da desanexação da freguesia de Quelfes da de S.Pedro (Faro), Quelfes é a denominação principal dada à extensão de terra rural, polvilhada de hortas e onde o termo de Faro delimita com o de Tavira (Moncarapacho, localidade já com relevo na época, pertencia a Tavira).

Regressando à nossa análise histórica, o Algarve era, nesta época de recém reconquista, um território a saque constante, porquanto os piratas mouros, oriundos de Marrocos, assaltavam constantemente os povoados. A área de Marim e Quatrim, presume-se, era já razoavelmente povoada. Um argum
ento base sustenta esta afirmação: A decisão de El-Rey Don Dinis mandar aí erigir um posto militar, que actualmente conhecemos por torre de Marim. A lápide aí existente, situada na parede norte do edifício, indica que a torre começou a ser construida "aos 13 dias do mês de Abril da Era de 1320", ou seja 1282 (só a partir de 1582 com a bula inter gravissimas do Papa Gregório XIII se processa à alteração da datação com a implementação do calendário gregoriano moderno. A diferença de datação - menos 38 anos - situa esta data no ano de 1282).

Por outro lado, escreve Alberto Iria, na obra "descobrimentos Portugueses - O Algarve e os Descobrimentos" que " em 1294, el rey D. Diniz concedera a um tal Pedro Thomaz e mulher, por aforamento, a séssega de uma azenha..." (possivelmente coincidente com o actual moinho de maré). Em 1365 é o então principe D. Pedro que concede por aforamento a Quinta de Marim a Afonso Pestana e su
a mulher Domingos. Concluindo: Marim e suas imediações configuram um centro populacional de alguma importância que urge defender. É neste ponto que se parece encaixar a lenda do Vale de Aran e dos seus cavaleiros. Infelizmente, os únicos vestígios físicos que, no vale, podemos encontrar deste período são uma espécie de poço (hoje aterrado), junto à ribeira de Marim e umas lajes de pedra, posteriormente aproveitadas como base para uma eira, numa propriedade mais acima.

Tudo o resto se resume à oralidade, preservada na principal quinta do vale, praticamente isolada até ao alcatroamento do caminho do buraco (denominação da via aliás bem coincidente com esse isolamento - o vale era, de facto, um "buraco" de isolamento). Protector dos templários (aliás a ele se deve a criação da ordem de Cristo que, por assim dizer, reuniu em Portugal os membros da dissolvida organização), não surge pois como facto estranho que D. Dinís, a
través desta nova agremiação, e ainda para mais tendo em conta as permentes necessidades de povoamento e defesa (que atrás referimos) tenha concedido terras em Quatrim a este grupo de povoadores, para aí se fixarem.
